sábado, 21 de janeiro de 2017

MARTÍRIO E FRAQUEZA


Recordo-me bem de ter lido Silêncio, do autor japonês Shusaku Endo, já lá vão uns bons anos. Ficou-me retido o fascínio pela profundidade da análise do drama existencial do protagonista, mas também alguma perplexidade a respeito da mensagem do livro. Os comentários (contrastantes entre si), que agora li, ao recente filme de Martin Scorcese baseado nesse livro confirmam essa mesma perplexidade.
Nun desses  comentários, o bispo norte-americano Robert Barren afirma que «como qualquer grande filme ou novela, Silêncio resiste a uma interpretação unívoca». Também isso revelam esses comentários.
Trata-se da história de dois missionários jesuitas portugueses que, no século XVII, percorrem o Japão em busca de um outro missionário, Cristovão Ferreira, o qual, de acordo com as crónicas da época, depois de ter sido mentor de muitos outros missionários jesuitas, não resistiu à tortura e renegou a sua fé, no período de violenta perseguição aos cristãos. Esse período de perseguição seguiu-se a um outro, de notável expansão missionária (em sessenta anos, o número de cristão atingiu os trezentos mil) que chegou a ser denominado “século cristão” do Japão.
O protagonista, Sebastião Rodrigues, dilacerado pela dúvida, vem a seguir o caminho de Cristovão Ferreira. Cede à chantagem de que é vítima: se pisar uma imagem de Jesus Cristo, sinal da sua apostasia, poderá salvar da morte um grupo de japoneses pobres convertidos ao cristianismo. O seu gesto pode ser objeto de várias leituras: uma cedência à sua própria fragilidade, ou um ato de suprema compaixão para com esses cristãos (perde-se para os salvar). Parece seguir a voz do próprio Jesus Cristo, que lhe diz para assim proceder, pois foi para ser pisado e crucificado que Ele veio ao mundo. Mas resta a dúvida se será mesmo essa a vontade de Deus, ou se essa não será uma forma de auto-justificação.
O livro foi, ao tempo da sua publicação, nos anos sessenta, objeto de severas críticas por parte de católicos japoneses. O bispo de Nagasaqui desaconselhou a sua leitura aos seus fiéis. Parece que contém uma justificação da apostasia, não valorizando o ato heróico dos mártires japoneses da época.
Agora, a propósito do filme, também já se escreveram críticas do mesmo teor.
A apostasia não se justifica em caso algum, mesmo para salvar vidas, porque os fins não justificam os meios. No combate interior de Sebastião Rodrigues, a dúvida e a fragilidade levam a melhor sobre a fidelidade dos mártires. Nesta linha, questionam a coerência cristão da mensagem do livro e do filme, entre outros, o bispo Robert Barron (em Catholic World Report), Brad Minner (em The Catholic Thing), John Paul Meenan (em Crisis Magazine) e J. D. Flynn (em First Things).
Por isso, o comentário ao filme do departamento de crítica cinematográfica da Conferência Episcopal norte-americana (Catholic News Service) afirma que o filme é adequado a pessoas de fé sólida que saibam fazer um discernimento maduro.
Compreendo essas críticas. A mensagem do livro e do filme pode ir de encontro à mentalidade contemporânea, hedonista, pouco exigente, oposta à dos mártires, dispostos da dar a vida pela sua fé. Essa mentalidade não pode entender as palavras de Jesus no Evangelho: «Se alguém quer vir após Mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz dia após dia e siga-me. (...) Pois quem quiser salvar a sua vida há de perdê-la; mas quem perder a sua vida por minha causa há de salvá-la» (Lc 9, 23-24).
O martírio percorre a história da Igreja. «O sangue dos mártires é semente de cristãos» - dizia Tertuliano nos primeiros tempos do cristianismo. E – disse já várias vezes o Papa Francisco – são hoje mais numerosos os mártires do que o eram nos primeiros tempos do cristianismo. O cristãos assassinados pelo Daesh e pelo Boko Haran poderiam ter salvo a sua vida se tivessem renegado a sua fé (e poderiam tê-lo feito só externamente). Tal como poderiam ter evitado a fuga e a perda de todos os seus bens muitos  cristãos da Síria e do Iraque hoje refugiados. Mas – disse com veemência a Irmã Maria de Guadalupe, que esteve há pouco tempo entre nós - «eles sabem que o Céu não se negoceia».
Era esta a fibra dos mártires japoneses do século XVII, missionários e japoneses convertidos ao cristianismo. O livro e o filme parecem não os compreender ou valorizar devidamente. O martírio dos japoneses nativos é sinal eloquente de que, apesar das  falhas no processo de inculturação do cristianismo, este não deixou de criar raízes no Japão (o que também é questionado no livro e no filme).
Mas outra leitura do livro e do filme é possível.
Convirá referir que Martin Scorcese foi aconselhado pelo sacerdote jesuíta James Martin e que os dois atores principais procuraram estudar e vivenciar a espiritualidade jesuita participando em retiros espirituais.
O final da história também deixa alguns sinais de que o protagonista, Sebastão Rodrigues, não terá renegado completamente a sua fé.   
Afirma Enrique Chuvieco (em Religion en Libertad): «Silêncio é um bom filme católico, onde se reconhece – num dos protagonistas – através de um extenuante e doloroso caminho, que Deus atua em cada alma de forma distinta e que, em situações tão extremas, está silenciosamente presente no sofrimento, como esteve com o seu Filho».
Para Juan Manuel de Prada (em Magnificat.net), Sebastião Rodrigues «nunca saberá de todo se cedeu aos suplícios de compaixão dos camponeses, ou se o fez para justificar a sua fraqueza, mas saberá com certeza plena que Cristo continua a amá-lo, como, sem dúvida, amou Judas até ao fim»; com ele «descobrimos que não existem fortes ou fracos, pois quem poderá assegurar que os fracos sofrem menos do que os fortes?»
E o Pe. João Maria Brito, SJ, no Observador: «A fé também cresce nestas linhas curvas, nos pontos de rutura das nossas vidas em que sabemos tão pouco, em que nos restam tão poucas certezas. Aí, talvez o nosso grito por Deus seja mais fundo e O possamos escutar, ainda que não O consigamos ouvir de um modo límpido (...); entrar nas sombras mais profundas da fragilidade humana será sempre recordar que a última palavra é Deus. Ele não se cala para sempre».
Ou seja, e em resumo, Deus não abandona (e o seu silêncio é só aparente) quem tem dúvidas, quem fraqueja, quem não consegue levar a sua fidelidade até às últimas consequências.
Com esta leitura, o livro de Endo e o filme de Scorcese não desiludirão os cristãos.
                                                                       Pedro Vaz Patto


     

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

TUDO SE PERDE COM A GUERRA, TUDO SE GANHA COM A PAZ

Salienta o Papa Francisco, na sua mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2017, que a violência não permite alcançar objetivos de valor duradouro e desencadeia uma espiral de morte infindável, que beneficia apenas poucos “senhores da guerra”. Há, então, que buscar resolver as controvérsias pelas vias da razão, das negociações baseadas no direito, na justiça e na equidade. A não-violência deve tornar-se o estilo característico dos relacionamentos e da ação política.
A não-violência a que alude o Papa não se confunde com a rendição ou a passividade; pelo contrário, é ativa e criativa e exige o máximo empenho e coragem. É potente e eficaz, como o revelam os exemplos históricos de Gandhi na libertação da Índia, Martin Luther King Jr contra a discriminação racial, ou João Paulo II e outros na queda do comunismo.
Haverá quem considere que esta é uma visão irrealista, que a guerra continua a ser um meio de reolução de muitos conflitos.Ou que será fraco o eco destas palavras do Papa junto dos políticos. Alguns destes, a seu tempo, responderam aos apelos de João Paulo II contra a guerra do Iraque dizendo que respeitavam essa sua posição, mas tinham outras responsabilidades como políticos, diferentes das de um líder religioso... E não seguiram esse apelo (teria sido melhor se o tivessem seguido- podemos afirmar hoje com certeza).
Mas não será irrealismo maior, e uma irresponsabilidade também no plano da eficácia política, pensar que a guerra resolve os complexos problemas com que nos deparamos hoje? Quase sempre a guerra cria mais problemas do que aqueles que possa resolver. Se pode ser legítima para “desarmar o agressor”, sê-lo-á em situações excecionais (e cada vez mais excecionais, se encararmos os progressos do direito internacional como uma conquista da civilização), sendo que parece continuar a ser vista como regra. «Com a guerra tudo se perde, com a paz tudo se ganha»- também afirmou noutras ocasiões o Papa.
Disso é prova evidente a atual guerra na Síria (mas também o são as anteriores guerras no Iraque e na Líbia). Dela resultam mortos, desalojados, refugiados e um verdadeiro caos social e político (e as suas consequências teriam sido ainda mais graves se tivesse havido um maior envolvimento das potências ocidentais, o que foi evitado, em grande medida, graças aos apelos do Papa Francisco). Os ódios acumulados e o fosso entre as várias comunidades são agora muito maiores. Em nada melhorou a situação desse país depois destes anos de guerra, e independentemente do seu desfecho. «Ninguém é vencedor nesta guerra» - afirmou António Guterres no discurso da sua tomada de posse como secretário-geral da O.N.U.. O desafio é, agora, precisamente, o que indica o Papa na sua mensagem: negociar com base na razão, no direito, na justiça e na equidade. Só assim poderão ser curadas as feridas e superado o caos social e político.
A guerra na Síria também não serviu para implementar a democracia, como alguns pretendiam (e o mesmo se poderá dizer das guerras no Iraque e na Líbia). Os povos do Médio Oriente não estão condenados a viver em ditadura. Quando oiço cristãos dessa região enaltecer ditadores porque garantiam a sua liberdade religiosa, fico algo perplexo, mas compreendo: na verdade, a chamada “primavera árabe” tem contribuido para o terrível êxodo dos cristãos de uma terra que habitam desde os primeiros tempos do cristianismo. É que a democracia não implica só a regra da maioria. Esta pode originar o totalitarismo se não implicar também a limitação do poder e, sobretudo, o respeito pelos direitos humanos, de entre os quais assume particular relevo o da liberdade religiosa.  E supõe um substrato social e cultural que não se impõe por decreto, não se improvisa e se constrói pacientemente. E também para esse efeito, a guerra cria mais problemas do que aqueles que possa resolver.
                                                                    Pedro Vaz Patto

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

MUROS E PONTES


              A eleição de Donald Trump surpreendeu o mundo.
          
         Muitos cristãos, católicos e evangélicos, saudaram essa eleição como um mal menor, face à sua adversária, Hillary Clinton, empenhada em alargar ainda mais as possibilidades de recurso ao aborto como direito absoluto, e capaz de limitar a liberdade de consciência e religião em âmbitos “fraturantes” como esse (ficou célebre um seu discurso em que afirmava que os Estados deviam usar meios coercivos para levar as autoridades religiosas a modificar as suas doutrinas tradicionais quanto a essas matérias). Mal menor porque o aborto será, hoje, o mais grave e sistemático atentado à vida e dignidade humanas.
            
         Este raciocínio envolve, porém um grave perigo: centrar unicamente em duas ou três causas (“single issues”) o empenho político dos cristãos, ignorando ou desvalorizando outras causas também importantes, assim descredibilizando esse empenho e justificando acusações de parcialidade e incoerência. Na verdade, mesmo um eventual “mal menor” não deixa de ser um “mal”. E a agenda de Donaldo Trump suscita justificados receios a quem se guia pela ética social cristã: desde a desregulação da posse de armas, ao incremento ainda maior das desigualdades de rendimentos, à hostilidade sistemática para com imigrantes e refugiados, ou aos atentados ao ambiente.
            
         A eleição de Donald Trump reforça grandemente uma corrente que vem soprando com cada vez mais força em vários países, para que as comissões justiça e paz europeias já haviam alertado na sua ação concertada de há dois anos, designando-a como “nacionalismo de exclusão”: o reforço das identidades nacionais não pela positiva, mas pela hostilidade para como o “outro”. Daí o protecionismo no campo económico, a recusa de acolhimento de refugiados e imigrantes, o acentuar do “conflito de civilizações” numa luta contra o Islão que o associa necessariamente ao terrorismo. Para usar a expressiva metáfora que vem usando o Papa Francisco, pretende-se construir muros mais do que pontes.
            
              Respeitar a vontade dos eleitores e tentar compreender as suas razões não pode levar-nos a esquecer que as maiorias também cometem erros históricos graves (como nas eleições que conduziram ao poder Adolf Hitler, por exemplo). 
          
       A globalização económica tem acarretado benefícios e injustiças. Tem acentuado desigualdades, mas também tem permitido a muitas pessoas (sobretudo na China e na Índia) sair da pobreza. Exige uma regulação, no campo dos direitos sociais e da fiscalidade, que tem faltado até aqui. Mas não pode «deitar-se fora o bebé com a água do banho». A alternativa passa por uma globalização regulada, não pelo isolacionismo proteccionista, que favorece algumas empresas nacionais em detrimento de outras, dos consumidores e dos países emergentes. Um documento recente dos bispos da União Europeia e dos Estados Unidos (ver www.comece.eu) alertava para aspetos contestáveis do tratado de livre comércio e investimento entre essas duas zonas económicas (o TTIP) que vem sendo negociado (e que agora parece comprometido face à eleição de Donald Trump), mas sem colocar em causa as vantagens do incremento desse comércio e desse investimento.
            
               A hostilidade para com imigrantes e refugiados esquece as lições da história, que revela como as migrações podem beneficiar quer os países de emigração, que os de imigração. Os exemplos de Portugal e dos Estados Unidos revelam isso mesmo.
            
                Seria muito ténue e pouco sólida a identidade de um povo e de uma cultura que receia perder-se pela simples convivência com outro povo ou outra cultura. Essa convivência pode ser fonte de enriquecimento recíproco.
           
            E, sobretudo, a identidade cristã de um povo e de uma cultura reforça-se com atitudes cristãs, de acolhimento e hospitalidade, não com atitudes (“pagãs”) de fechamento e hostilidade, reforça-se construindo pontes, e não muros.


                                                                                   Pedro Vaz Patto  
                          
             

        

domingo, 27 de novembro de 2016

MENSAGEM DE ADVENTO E NATAL DO SENHOR BISPO DE VILA REAL

Mensagem Advento e Natal, para receber em casa o Filho de Deus

Caros Diocesanos, Padres, Religiosos e Fiéis:

Está perto o Advento e o Natal do Filho de Deus feito homem, sendo convidados, por Ele, a deixá-lo entrar, em nós, para, com Ele e com todos, partilharmos a alegria da Sua vinda e da promessa que nos fez e a Sua última vinda nos há-de dar. O presépio, com a grada Família, os Pastores e os Magos, evoca o gesto amoroso de Deus, que veio, quer viver e entrar nos corações e convida a abrir a porta, a unir, a praticar a inclusão, sem discriminações, muros e rejeições. O Natal congrega, no amor, na fé e na esperança.  

1.- Quando Jesus nasceu, em Belém, não havia lugar, na hospedaria, mas Jesus aceitou a hospedagem de quem O convidou, rico ou pobre, fariseu, santo, pecador ou colector de impostos, sem excluir ninguém, apostando no amor fiel e universal, na inclusão, no diálogo e convite a todos. Deus está sempre antes e acima, é sempre prévio, intervém primeiro. O amor de Deus precede-nos. O Filho encarnado, desceu dos céus, por causa de nós homens e para nossa salvação e é Palavra à espera de ser recebida e posta em prática, pois, Deus não rejeita ninguém, conta connosco e espera resposta.
Dentro em pouco, estaremos a armar o Presépio em casa e na Igreja, evocando a vinda de Jesus, que nasceu, em Belém, e que, hoje, no tempo da Igreja, que é o nosso e nos é dado viver, bate à porta do coração de cada um e quer entrar. Ouvíamos, há dias, falar da passagem de Jesus, por Jericó, a caminho de Jerusalém, onde se entregou à morte, por amor. Era o relato caricato do homem pequeno, terrivelmente odiado, que subia à árvore, para ver Jesus, que o convidou a descer, porque queria ser seu hóspede. Para a opinião pública judaica, ele era pecador, por ser chefe de colectores de impostos, por ajudar o imperador romano, e, por isso, não merecia nada, não tinha perdão. Zaqueu, porém, recebe Jesus, com alegria, converte-se e é magnânimo dando metade dos bens aos pobres, repartindo e restituindo quatro vezes mais. A sua conversão mostra o que a graça de Deus e a presença de Jesus, é capaz de operar. A salvação entrou em casa de Zaqueu. Jesus conquistou o seu coração e a família do colector de impostos, que acreditou, dando mais que os outros, como a pobre viúva. Ninguém é excluído. Deus chama e quer a salvação dos que crêem e recebem a Palavra de Deus, para serem salvos. Antes do maravilhoso encontro com Jesus, havia, em Zaqueu e, bem assim, nos pecadores e afastados, que viviam sem Deus e sem alegria, distanciamento, vergonha e rejeição, agora, há alegria, magnanimidade, fé, empenho, esperança e razão de viver.
Neste Ano Pastoral, devíamos ter consciência da importância da Família e de Jesus que ilumina, alegra e dá sentido à existência humana. A Igreja de Cristo é família alargada dos filhos de Deus, que é comunhão de crentes, como Maria Santíssima que acredita e obedece e como os discípulos do Ressuscitado que O viram e receberam o Espírito. A Igreja, comunhão de crentes e inundada pelo Espírito do Ressuscitado, como no início, continua a reunir-se, nas casas, para voltar às casas, onde Cristo bate à porta, para que alguém lhe abra, desejando ser recebido, como Zaqueu O recebeu alegre em sua casa. Como dizem os Actos dos Apóstolos, a Igreja Mãe de Jerusalém e a Igreja, no início, reunia-se nas casas, onde os cristãos celebravam a fé, perseveravam na oração e no ensino dos Apóstolos, repartindo os dons e Jesus Eucaristia, tendo um só coração e uma só alma. Não havia outros espaços para a celebração, o anúncio e testemunho vivencial e fraterno da fé e da esperança cristã além da casa, onde as pessoas vivem, para Deus tocar os corações e dizer: deixa-me entrar, pois, quero alojar-me em teu coração e cear, habitar e ser feliz contigo.   

2. - Termina o Ano Litúrgico e o Ano Jubilar da Misericórdia e iniciamos um novo ano de celebração do mistério da salvação, com o Ciclo da Encarnação, que inicia com o Advento e tem o centro na Solenidade do Natal do Filho de Deus, que Se fez Filho do Homem, nascido da Virgem por virtude do Espírito Santo. O Ano Litúrgico compõe-se de três Ciclos, cada um com uma festa: o Ciclo da Encarnação, com o Natal, o Ciclo da Redenção, com a Páscoa, e o Ciclo da Igreja, inundada e habitada pelo Espírito Santo, que recebe a sua força, impulso e missão, na Festa do Pentecostes, que deu lugar ao nascimento e missão da Igreja. A Igreja peregrina, na fé e na esperança, vive o tempo intermédio, entre a primeira vinda do Filho de Deus, na carne, e a Sua Vinda gloriosa, para transformar o nosso corpo mortal à imagem do Seu Corpo glorioso.

3. A fé na encarnação, morte e ressurreição do Filho de Deus e na vinda do Espírito Santo deve levar-nos a redobrado empenho missionário, a não calarmos o que vimos e ouvimos e a não nos envergonharmos de Jesus Cristo e do Seu Evangelho, suportando, com constância e fidelidade, todos os reveses, perseguições e contra-tempos. Como os Pastores, os Magos e a Mãe de Deus, ao receber a Mensagem do Anjo, deixemo-nos inundar da alegria da Boa Nova, que a Vinda de Jesus traz, e comuniquemos a alegria a outros, fazendo o bem, praticando a justiça, sendo misericordiosos e perdoando, para obter de Deus a misericórdia e o perdão, dado que somos necessitados e pecadores. 
Desejo-vos, Irmãos e Irmãs, um Santo Advento e Feliz Natal, pedindo a Deus que Vos encha de dons e vos faça testemunhas do Seu amor e solidários com os fracos, pobres e doentes, na Igreja, serva e pobre, chamada a ser, em Cristo, rosto de misericórdia e sacramento universal de salvação, na família humana dos filhos de Deus.
Com afecto, Vos saúdo e peço, para Vós, a bênção de Deus Pai Filho e Espírito Santo.


+ Amândio José Tomás, bispo de Vila Real.

domingo, 16 de outubro de 2016

CENTRO CATÓLICO DE CULTURA DA DIOCESE DE VILA REAL
PROGRAMA PARA 2016-2017

27 de Outubro de 2016, às 21h30: Abertura do ano lectivo, com uma Introdução Geral à Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, pelo Padre Rui Alberto Almeida SDB

1.º trimestre (04/11 – 02/12/2016), 21h00 – 22h30:
5 sessões de estudo dos documentos “Evangelii Gaudium” e “Laudato si”

20 de Janeiro de 2017, às 21h15: Início do 2.º trimestre, com uma Introdução Geral à Exortação Apostólica Amoris Laetitia, por D. Manuel da Silva Rodrigues Linda, Bispo das Forças Armadas e de Segurança

2.º trimestre (27/01 – 24/02/2017), 21h00 – 22h30:
5 sessões de estudo do documento “Amoris Laetitia”

28 de Abril de 2017, às 21h30: Início do 3.º trimestre

3.º trimestre (05/05 – 09/06/2017), 21h00 – 22h30:  
5 sessões de estudo e aprofundamento da Bíblia
(Evangelho de São Mateus)



& ………………………………………………………………………………………...........…

Ficha de inscrição para cada trimestre
Nome………………………………………………………………………………

Data de nascimento ........../........../............... Habilitações literárias………………

Contactos: Telefone ou telemóvel......................... E-mail………………………..

Paróquia…………………………………………………………………………...

Arciprestado……………………………………………………………………….

Assinatura do aluno……………………………………………………………….

Assinatura do Pároco……………………………………………………………...

Entregar, junto com o respectivo pagamento (€ 10,00 por trimestre), no Seminário de Vila Real.



sexta-feira, 27 de maio de 2016

Homilia da Festa do Corpo de Deus, no dia 26 de Maio de 2016

Ó Sagrado Banquete em que se recebe Cristo, se comemora a Sua Paixão, a alma se enche de graça e nos é dado o penhor da futura glória. A Eucaristia é refeição e festa, onde Cristo se dá em alimento. É memorial da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus, que nos dá a graça e a vida eterna. É a suma dos mistérios da encarnação, da redenção e da vida gloriosa do Filho de Deus que se dá, por amor. Ela faz a Igreja e é o coração da Igreja. Se a Igreja não cria comunhão é porque não foi compreendida e assimilada.

1.-Mas porque celebrar a Festa da Eucaristia se há tantas todos os dias e no dia do Senhor em que Jesus ressuscitou? A festa nasceu, após uma criança de seis anos, Santa Juliana, ter visto a lua manchada. Por incúria, ignorância, preguiça e rotina, as manchas caem no melhor pano. Como a Lua, a Igreja reflecte a luz do Sol, que é Cristo, mas é feita de santos e pecadores. Há o perigo de se profanar e banalizar o Corpo e o Sangue do Senhor, como em Corinto, engolindo hóstias sem saber o que se faz, sem distinguir o Corpo e o Sangue do Senhor. A Festa do Corpo de Deus visa evitar a rotina, distinguir a Ceia do Senhor do alimento normal, porque a Eucaristia é divina e incompatível com o pecado e o desregramento e exige verdade, comunhão e vida nova. A festa do Corpo e Sangue de Cristo surgiu, no século XIII, instituída por Urbano IV, em 1264, a pedido de Santa Juliana, religiosa e mística perseguida, que foi seis vezes desterrada e expulsa do seu Mosteiro. A festa suscita reparação, desejo de ver a Deus, adoração de Cristo e a acção de graças. Alimenta a fé na presença real de Cristo. Foi, na Idade Média, que surgiu a elevação da hóstia e do cálice, após a consagração para “elevar Deus” e adorar Cristo, na vida e na Procissão do Corpo de Deus. Cristo está connosco e nós com Ele. Os hinos eucarísticos de S. Tomás expressam adoração, acção de graças e o louvor à presença real de Cristo. Na Eucaristia e Procissão pela cidade louvemos e adoremos Jesus Sacramentado, para que nos encha de graça e nos conserve firmes na fé e na prática dos mandamentos e das Obras de Misericórdia. Entre as orações de acção de graças, rezar a que vem, nos Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loiola:

 Alma de Cristo, santificai-me. Corpo de Cristo salvai-me, sangue de Cristo inebriai-me. Água do lado de Cristo, lavai-me. Paixão de Cristo, confortai-me. Ó bom Jesus, ouvi-me. Nas Vossas chagas, escondei-me. Não permitais que me separe de Vós. Do inimigo maligno, defendei-me. Na hora da minha morte, chamai-me. E mandai-me ir para Vós. Para que Vos louve, com os vosso Santos. Por todos os séculos dos séculos. Ámen.  

Diz o povo que “com pão e vinho já se anda o caminho”. A Igreja vive da Eucaristia, do pão e vinho consagrados, que asseguram a presença de Jesus morto e ressuscitado. Na figura de pão e vinho, está presente o preciosíssimo Corpo, Sangue, Alma e Divindade do Ressuscitado. O Pão e o Vinho, que Melquisedec ofereceu a Deus, são figura da Eucaristia, banquete sacrificial e festivo, onde Jesus se entrega, no memorial da Sua Morte, Ressurreição e Vinda gloriosa, sabendo Que Ele esta sempre connosco.

2. Paulo diz aos Coríntios como Jesus instituiu a Eucaristia. Na última Ceia, na noite em que foi entregue, tomou o pão, deu graças, partiu-o e disse: Isto é o meu Corpo entregue por vós. Fazei isto em memória de mim. E, no fim da Ceia, tomou o cálice com vinho e disse: Este cálice é a nova aliança no meu Sangue. Todas as vezes que o beberdes, fazei-o em memória de mim (1 Cor.11, 23-26). A Eucaristia é aliança. Pede adesão e fidelidade a Deus, compromisso e adoração. Com razão diz Santo Agostinho: “senão O adoras, não O recebes”.
Paulo contou aos Coríntios o que Jesus fez, não para dizer o que já sabiam e faziam. Os Coríntios celebravam, no primeiro dia da semana, no dia da Ressurreição, o memorial do que Jesus fez, na Ceia e na aparição aos discípulos, em Emaús. Paulo não diz que devem celebrar a Eucaristia, pois, já o faziam, mas denuncia o modo como celebravam, não distinguindo o Corpo e o Sangue do Senhor, comendo e bebendo a condenação. A Eucaristia é a comunhão, participação no memorial da Morte e Ressurreição do Senhor e se não faz, não cria a comunhão da Igreja, Corpo místico de Cristo, não é dignamente celebrada. Trata-se de não banalizar nem profanar a Eucaristia. Não basta engolir hóstias, é preciso adorar, glorificar, deixar-se plasmar pelo Espírito, convertendo-se, colocando a vida ao serviço e conformando a vida a Cristo, que encarna e se dá em alimento, para nos plasmar e conformar a Ele, cumprindo a Sua vontade.

3.- Jesus diz aos discípulos: “dai-lhes vós de comer”. Ordena a primeira Obra Corporal de Misericórdia, o dar de comer a quem tem fome. No Ano Jubilar da Misericórdia, não basta saber belas noções, há que ajudar, fazer e dar. “O amor mostra-se em obras, não na ideologia”, mas na misericórdia, no perdão e no dom de si. Não engolir a hóstia, sem amor e atenção aos outros, sem comunhão eclesial.”Ninguém pode dizer que ama a Deus a quem não vê, se não ama o irmão que vê”. A Eucaristia faz a Igreja. Se ela não gera co-responsabilidade, partilha e solicitude, é sinal que a Eucaristia é farsa para inglês ver. A desunião era o grande mal da Igreja de Corinto. Celebravam a Ceia, mas não distinguiam o Corpo do Senhor, que é o Corpo Místico, a Igreja Esposa e Templo do Espírito. Enquanto se vangloriavam, se serviam e esbanjavam, na bebedeira e nos desregramentos, outros passavam fome, eram desprezados, humilhados e esquecidos.
Na multiplicação dos pães, Lucas mostra Jesus e os discípulos em acção (Lc 9,11-17). Jesus acaba de falar do Reino de Deus e cura quem precisa e os discípulos regressam da missão e contam o que fizeram. Não basta viver de qualquer forma. A Fé não é uma noção, mas actua pela caridade, pois o amor a Deus não dispensa, mas exige o amor ao próximo. O dia chegou ao fim, como na Ceia, quando Jesus instituiu a Eucaristia. A multidão organiza-se em assembleia litúrgica, em grupos de 50. O milagre da multiplicação prepara e reenvia para o milagre da Eucaristia, que se expressa e vive no mundo. Enquanto Jesus, único e eterno sacerdote, parte e abençoa o pão, como em Emaús, os Discípulos dão a cada um a sua parte de pão e peixe multiplicados. Jesus é o anfitrião, é o mestre e supremo pastor e sacerdote, mas não dispensa a nossa ajuda. Os sacramentos exigem de nós fé, docilidade, empenho, conversão, mudança e desejo de ajudar o Senhor Ressuscitado a resolver os problemas das outras pessoas. Notar bem que os sacramentos não são gestos mágicos, golpes de teatro, mas supõem a fé, a obediência, a recta intenção, a conversão, o compromisso diário e a coerência cristã.
Jesus abençoa, dá e parte o pão, que é Ele mesmo e é sempre dom. A Eucaristia não é um meu direito, mas sempre o dom gratuito de Deus. Na Eucaristia, concentramo-nos, em Cristo que se dá, não devemos julgar os outros, cientes de sermos pedintes, pobres e pecadores. Não sabemos quem é mais agradável a Deus, se o que comunga sem adorar e sem saber o que faz, quando engole a hóstia, se o que, não podendo, por respeito e contrição, não recebe a hóstia, mas, espiritualmente O adora e chora por O não poder receber. Quando comungamos não olhemos para o lado, não julguemos os outros, como o fariseu da parábola, para o qual todos eram maus, só ele era o bom e, por isso, orgulhoso e cheio de vento, voltou para casa sem ser perdoado. 
Todos comeram e ficaram saciados”. Quando se divide e partilha, os resultados são sempre muitos. Os Doze Cestos, que sobraram, como os Doze, que o Senhor escolheu e as Doze tribos do Povo Eleito, são o símbolo da grandeza do bem, da verdade, da beleza e da alegria partilhada, vivida, em comunhão, com os outros, pois, como diz o Senhor, “há mais alegria em dar que em receber” (Act.20,35).
No Novo Testamento, o mistério da Eucaristia é Ceia do Senhor, Comunhão e Fracção do Pão. Se não há partilha, amor, festa, convívio, união e inclusão, a Eucaristia não nos toca, não é entendida e assimilada, não atinge os objectivos para que foi instituída. A desvergonha, o esbanjamento, a inconsciência, as divisões e a bebedeira das reuniões, ceias ou ágapes da Comunidade de Corinto nada tinham a ver com a Ceia do Senhor e “traziam para eles mais prejuízo que benefícios” (1 Cor.11,17). É precisa mais Eucaristia e menos missas apressadas, de fachada e de auto-endeusamento, sem comunhão e esforço e vontade de se deixar mudar por Cristo. É precisa a catequese mistagógica e a fé, dando a conhecer e a saborear o dom de Deus, como pede Jesus à Samaritana. Há que redescobrir e valorizar a Eucaristia que é o centro e o cume, para o qual tudo converge. Esforcemo-nos, por não a profanar, adorando Jesus presente, que se dá e nos pede para amarmos os outros, como Ele o fez, sem odiar e sem excluir ninguém, dialogando, acolhendo, ajudando e integrando quem quer que seja. Amen. 


+ Amândio José Tomás, bispo de Vila Real