quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

AS TRÊS VINDAS DE CRISTO


         No tempo que nos conduz ao Natal, temos sempre como pano de fundo as duas vindas de Cristo de que nos fala o Novo Testamento: a sua vinda no tempo histórico determinado por Deus e a sua segunda vinda (a Parusia), da qual não sabemos o dia nem a hora. Sobre esta segunda vinda, reza um dos prefácios eucarísticos do Advento:
Vós nos escondestes o dia e a hora,
em que Jesus Cristo, vosso Filho,
Senhor e juiz da história,
aparecerá sobre as nuvens do céu
            revestido de poder e majestade.
Nesse dia tremendo e glorioso,
Passará o mundo presente
E aparecerão os novos céus e a nova terra.
Entre estas duas vindas, situa-se aquela que acontece na vida da Igreja, em cada um dos seus membros, iluminando e fortalecendo o seu dia a dia. Essa não tem lugar nem tempo marcado, nem é esperada para o fim dos tempos, mas dá-se sempre que nós, tocados pelo sopro do Espírito, deixamos que Cristo entre e tome conta da nossa vida. Ele avisa-nos da sua chegada e pede que o recebamos: “Olha que Eu estou à porta e bato: se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, Eu entrarei na sua casa e cearei com ele e ele comigo” (Ap 3, 20). Falando desta vinda presente, o mesmo prefácio continua:
Agora Ele vem ao nosso encontro,
em cada homem e em cada tempo,
para que O recebamos na fé e na caridade
e demos testemunho da gloriosa esperança do seu reino.
Se olharmos de novo para o texto de Ap 3, 20, ao qual poderíamos juntar outros, como por exemplo Lc 24, 13-35 (o encontro do Ressuscitado com os discípulos de Emaús), damo-nos conta de que aquele que venceu a morte, também agora, no momento presente, nos quer fazer participantes do banquete do seu Reino, o qual tem a sua expressão terrena na Eucaristia. É nela que Jesus Cristo ressuscitado se torna presente, irrompendo com toda a sua força para nos ajudar a cristificar a vida. Nela afirmamos convictamente “Ele está no meio de nós”, mas tal asserção de fé só se torna real se levarmos a sério a Eucaristia.
Em tal contexto litúrgico e vital, o sacerdote cristão aparece como aquele que torna actual esta presença eucarística de Cristo. Sem sacerdócio não existiria Eucaristia, mas também sem Eucaristia o sacerdócio não teria razão de ser, nem sequer existiria a Igreja (cf. João Paulo II, A Igreja vive da Eucaristia, caps. II e III). Neste mistério radica a grandeza do sacerdócio e ao mesmo tempo a sua condição de serviço humilde à Igreja, que torna possível a presença luminosa e operante de Cristo em cada baptizado. Daqui deriva também a gratidão profunda que todos os fiéis cristãos, que participam do sacerdócio baptismal, devem ter para com Cristo, que lhes doou o sacerdócio ministerial.
A gratidão de que acabámos de falar não nos pode levar  a pensar no sacerdócio cristão como constitutivo duma casta que tudo sabe e detém todo o poder, à maneira do sacerdócio judaico do tempo de Jesus. A este propósito, são oportunísimas as palavras de Bento XVI, na sua carta aos sacerdotes: «Neste contexto, há que recordar o caloroso e encorajador convite feito pelo Concílio Vaticano II aos presbíteros para que "reconheçam e promovam sinceramente a dignidade e participação própria dos leigos na missão da Igreja. Estejam dispostos a ouvir os leigos, tendo fraternalmente em conta os seus desejos, reconhecendo a experiência e competência deles nos diversos campos da actividade humana, para que, juntamente com eles, saibam reconhecer os sinais dos tempos"».
Reconhecer os sinais dos tempos: eis um grande desafio lançado a toda a Igreja e, por ela, ao mundo de hoje.

NOTA: A este propósito, recomendamos a leitura do Sermão de São Bernardo que hoje nos é proposto na Liturgia das Horas (ofício de leitura da quarta-feira da primeira semana do Advento).

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