quinta-feira, 28 de março de 2013

CREIO NO ESPÍRITO SANTO


Passaram os quarenta dias de caminhada quaresmal. Entramos agora no tempo da Páscoa, que não se resume ao Tríduo Pascal, mas nos leva, com Cristo ressuscitado, até ao Pentecostes, à vinda do Espírito Santo.
Depois de expressar a fé da Igreja em Deus Pai Criador e no Filho Redentor, o Símbolo dos Apóstolos afirma: “Creio no Espírito Santo”; e o Símbolo de Niceia-Constantinopla acrescenta: “…Senhor que dá a vida, e procede do Pai e do Filho, e com o Pai e o Filho é adorado e glorificado: Ele que falou pelos Profetas”. Esta é a síntese da fé da Igreja relativamente àquele que habitualmente é chamado “a terceira Pessoa da Santíssima Trindade”.
Quem é o Espírito Santo? Apresentamos uma síntese da forma como Ele nos aparece na Sagrada Escritura.
No Antigo Testamento
a) Os termos ruah e pneuma, que costumamos traduzir por espírito, são nomes comuns, que designam o vento, a respiração, o hálito de vida existente nas criaturas. Estas são forças misteriosas e inefáveis. O vento pode ser violento, mas também é indispensável para que tudo se mova e a sua brisa suave não deixa de ser agradável. A respiração é a força que sustem e anima o corpo. Ambos vêm de Deus, e o sopro de vida que Iahweh insuflou em Adão (Gn. 2, 7: “Então Iahweh Deus modelou o homem com a argila do solo, insuflou em suas narinas um hálito de vida e o homem se tornou um ser vivente”) volta a Ele com a morte do homem e da mulher.
No homem, o espírito não é a mesma coisa que a alma, pois a concepção de alma imortal distinta do corpo não existe na Bíblia Hebraica. Existe sim o conceito de homem como uma unidade inseparável de corpo e espírito. No entanto, o espírito opõe-se à carne, se entendemos esta como a parte corruptível e mortal do homem, enquanto o alento vital lhe é dado por Deus, até à morte.
b) Usa-se também a expressão espírito de Deus para falar da acçãoforça e dinamismo divinos. O espírito de Iahweh revela-se sobretudo como uma força divina que se manifesta na criação (Gn. 1, 2: “...um vento de Deus pairava sobre as águas”) e nas pessoas humanas, transformando-as e fazendo-as capazes de grandes gestos. Estes gestos destinam-se a confirmar o povo na sua vocação e a ajudá-lo a ser fiel ao seu Deus.
O espírito de Iahweh inspira os profetas, e isto é reconhecido sobretudo depois do exílio. É também ele o espírito carismático que suscita os juizes e os reis de Israel, e é nele que é ungido o servo de Iahweh (cf. Is. 61, 1: “O espírito do Senhor Iahweh está sobre mim, porque Iahweh me ungiu”). Com efeito, o espírito abre aos profetas a Palavra de Deus e transforma-os em testemunhas, e Iahweh coloca o seu espírito sobre o seu servo (cf. Is. 42, 1).
c) Em algumas passagens do A. T. aparece também a expressão Santo espírito (por ex. no Sl. 51, 13: “...não me rejeites para longe de tua face, não retires de mim teu santo espírito) ou Espírito santo (por ex. em Is. 63, 10), mas o Espírito Santo não é ainda apresentado como uma pessoa distinta do Pai e do Filho. É simplesmente o Espírito de Deus, que é santo e se comunica à humanidade.
No Novo Testamento, usa-se o termo grego pneuma. No N. T. há alguma influência dos escritos do judaísmo extra-bíblico. Fala-se do Espírito de Deus (ou do Espírito Santo) em todos os evangelhos e em outros escritos neotestamentários, mas a sua explicitação como pessoa dá-se sobretudo em S. Lucas e nos Actos dos Apóstolos, em S. Paulo e em S. João.
a) Em primeiro lugar, o Espírito de Deus manifesta-se em Jesus: na sua concepção (cf. Mt. 1, 18.20: 18“Maria, sua mãe, comprometida em casamento com José, antes que coabitassem, achou-se grávida pelo Espírito Santo” [...]20“José, filho de Davi, não temas receber Maria, tua mulher, pois o que nela foi gerado vem do Espírito Santo”; Lc. 1, 35: “O anjo lhe respondeu: ‘O Espírito Santo virá sobre ti e o poder do Altíssimo vai te cobrir com a sua sombra”), no seu baptismo (Mt. 3, 13-17; Mc. 1, 9-11; Lc. 3, 21-22; Jo. 1, 29-34: 32“E João deu testemunho, dizendo: ‘Vi o Espírito descer, como uma pomba, vindo do céu, e permanecer sobre ele”. 33“Eu não o conhecia, mas aquele que me enviou para baptizar com água, disse-me: ‘Aquele sobre quem vires o Espírito descer e permanecer é o que baptiza com o Espírito Santo’”), na sua ida para o deserto (Mt. 4, 1; Mc. 1, 12; Lc. 4, 1: “Jesus, pleno do Espírito Santo, voltou do Jordão; era conduzido pelo Espírito através do deserto...”), nos momentos de intimidade com o Pai através da oração (Lc.10, 21: “Naquele momento, ele exultou de alegria sob a acção do Espírito Santo e disse: ‘Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste essas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos’”), no seu ministério público (por ex. quando expulsa os demónios ou quando opera os seus milagres) e na sua morte e ressurreição: Jesus, entregando o seu espírito (Lc. 23, 46; Jo. 19, 30), prepara a efusão do Espírito Santo sobre os seus. Na entrega do espírito de Jesus ao Pai, realiza-se a glorificação da Santíssima Trindade.
b) Antes de partir deste mundo, Jesus promete o envio do Espírito Santo, que virá como consolador, defensor e intercessor (Jo. 14, 16: “...e ele vos dará outro Paráclito...”; 16, 7: “...se eu não for, o Paráclito não virá a vós. Mas se eu for, enviá-lo-ei a vós.”), como Espírito da Verdade (Jo. 14, 17; 16, 13. “...ele vos conduzirá à verdade plena...”), como aquele que tudo ensina (Jo. 14, 26: “Mas o Paráclito, o Espírito Santo que o Pai enviará em meu nome, vos ensinará tudo e vos recordará tudo o que eu vos disse”), que irá desmascarar a culpabilidade do mundo (cf. Jo. 16, 8-11) e que glorificará o próprio Jesus  Cristo (Jo. 16, 14: “Ele me glorificará porque receberá do que é meu e vos anunciará”).
c) Depois da sua ressurreição, Jesus concedeu o Espírito Santo aos Apóstolos, para que pudessem cumprir a sua missão: “Recebei o Espírito Santo. Aqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; aqueles aos quais os retiverdes, ser-lhes-ão retidos” (Jo. 20, 22-23). Mandou-os também baptizar os novos discípulos “...em nome do Pai, do Filho e dos Espírito Santo” (Mt. 28, 19).
d) A grande manifestação do Espírito Santo à Igreja nascente dá-se porém no Pentecostes. Segundo o texto de Act. 2, 4, “...todos ficaram repletos do Espírito Santo...”. Deu-se aqui o cumprimento da promessa de Jesus Cristo, de que não deixaria órfãos os seus discípulos. O Espírito Santo é o defensor e consolador prometido, e por Ele os discípulos darão testemunho de Cristo. É pela sua acção que a Igreja se dá a conhecer ao mundo e se liberta das peias que o judaísmo insiste em lhe colocar. Os Apóstolos perdem o medo de testemunhar a sua fé em Jesus Cristo ressuscitado e lançam-se na missão de anunciar o Evangelho ao mundo, porque o Espírito Santo está com eles. É também Ele que guia a Igreja e está presente nas suas grandes decisões. Por isso se diz que o Espírito Santo é a alma da Igreja.
e) A cada cristão Ele concede os dons ou carismas necessários, mas do mesmo modo que garante a comunhão na Santíssima Trindade, também congrega a Igreja na unidade e santifica-a como Corpo de Cristo. Por isso São Paulo pode saudar os cristãos de Corinto com a fórmula trinitária que nós hoje continuamos a usar: “A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus [Pai]e a comunhão do Espírito Santo estejam com todos vós!” (2Cor. 13, 13). Esta é a condição indispensável para sermos Igreja e actuarmos como Igreja.
CONCLUSÕES
Depois desta exposição sobre a forma como a Sagrada Escritura nos fala do Espírito Santo, podemos sintetizar, em jeito de conclusão:
1. O Espírito Santo vai-se manifestando discretamente, até se revelar em força nos momentos mais decisivos da história da salvação. No A. T., «o Espírito Santo, como pessoa, está encoberto», como diz o Papa João Paulo II na sua Encíclica “Dominum et Vivificantem” (cf. n.º 15). Irrompe no N. T., depois de o Filho consumar a sua obra de salvação. De facto, como podemos verificar, no A. T. predomina a figura do Pai; no N. T. predomina a figura do Filho e ao mesmo tempo abre-se o caminho à acção do Espírito Santo na Igreja. Assim se torna explícita a existência da Santíssima Trindade, presente desde o princípio na obra da criação.
2. O Espírito Santo é uma pessoa, mas para se falar dele usa-se a linguagem dos símbolos, que evidenciam aquilo que Ele faz. Eis alguns desses símbolos:
Vento, sinal da força de Deus: o vento destrói obstáculos que pareciam intransponíveis (Act. 2, 2) e é símbolo da força, acção e dinamismo de Deus, que se manifestam logo na criação (cf. Gn. 1, 2) e depois actuam nos profetas (Ez. 1, 4) e nos Apóstolos (Act. 2, 2).
Hálito, alma (alento vital) do homem: Gn. 2, 7.
Água: os rios de água viva de que fala Jesus em Jo. 7, 38 são o símbolo da vida nova no Espírito Santo: “Ele falava do Espírito que deviam receber aqueles que tinham crido nele; pois não havia ainda Espírito, porque Jesus ainda não fora glorificado” (Jo. 7, 39).
A pomba é o sinal da simplicidade, da liberdade e da paz, do calor e da   vida, e do mistério de Deus. Conforme a pomba que pousa na arca de Noé (Gn. 8, 6-12) anuncia a nova humanidade, também aquela que aparece no Baptismo de Jesus (Mt. 3, 16) anuncia que Ele é o iniciador da nova criação, o que baptiza no Espírito Santo.
fogo significa, na Bíblia, a presença amorosa e activa de Deus no meio do seu povo. É sinal de insatisfação, de inquietação, de purificação (Is. 6, 6-7;   Ez. 1, 4) e entrega à missão, sobretudo ao ministério da Palavra (cf. Act. 4, 8. 20: a ânsia de proclamar a Palavra é como um fogo que queima). Por isso em Act. 2, 3 o Espírito Santo desce em forma de línguas de fogo.
3. A acção do Espírito Santo não se opõe à acção de Cristo, mas vem depois dele e graças a ele «para continuar no mundo, mediante a Igreja, a obra da Boa Nova da salvação» (cf. Dominum et Vivificantem, n.º 3). Assim, «o Espírito Santo fará com que perdure sempre na Igreja a mesma verdade, que os Apóstolos ouviram do seu Mestre» (cf. Dominum et Vivificantem, n.º4).
4. A sua acção concretiza-se em favor de cada pessoa individual, e em favor da Igreja. O Espírito Santo e as suas inspirações não são propriedade privada de ninguém, mas é em confronto com a Igreja que nós devemos avaliar os carismas que o Espírito vai suscitando em cada pessoa.
5. O Espírito Santo é o Espírito da Verdade. É no seu testemunho que «o testemunho humano dos Apóstolos encontrará o seu mais forte sustentáculo» (cf. Dominum et Vivificantem, n.º 5). Assim o Espírito Santo não ensina nada diferente do que Jesus Cristo ensinou, mas pelo contrário, assegura de modo duradouro a transmissão e irradiação da Boa Nova revelada por Jesus de Nazaré (cf. Dominum et Vivificantem, n.º 7).

segunda-feira, 25 de março de 2013

MENSAGEM DE SANTA PÁSCOA DA RESSURREIÇÃO

Meus caros Diocesanos, Padres, Diáconos, Religiosos e Leigos:
Votos de santa Páscoa, na alegria de Jesus Ressuscitado. Exultemos e alegremo-nos. A pedra rejeitada pelos construtores, se tornou pedra angular, obra de  Deus e prodígio. É o dia da vitória do Senhor, exultemos e alegremo-nos nele! (Sl.118,22-24). Demos glória a Deus e agradeçamos o Papa que Ele nos deu e a fé e a feliz esperança em Jesus Ressuscitado, alegria e razão de ser da nossa vida!
Aleluia! Aleluia!
1.- A Páscoa leva-nos para lá da Quaresma, mediante o memorial do mistério pascal da morte e ressurreição do Senhor, para a Páscoa eterna e gloriosa, com Cristo, em Deus. A comunhão do corpo e sangue do Senhor ajuda-nos a pré-saborear os bens celestes, caminhando firmes e inabaláveis na fé e na esperança em Jesus Ressuscitado, que venceu o pecado e a morte. A Eucaristia cria e anuncia a união com Cristo glorioso, é memorial da Sua morte, sinal sacramental de fé, amor e esperança nos bens e na vida eterna que desejamos e convite a crer no amor e alegria da Boa Nova, alicerçados em Cristo, até sermos um, com Ele, em Deus. Na Eucaristia colhemos a fé e a esperança na vida eterna, o amor perene dado até ao limite e alegria que não tem fim.
João Paulo II pediu para nos abrirmos a Cristo, Bento XVI a centrar tudo, em Cristo, que não rouba nada e nos dá tudo e o recém-eleito Papa Francisco, Bispo de Roma e Pastor Universal, para caminhar, edificar e confessar Jesus Cristo, não correndo em vão, nem edificando sobre a areia. Como os ramos sem a videira secam, sem Ele não há pode haver frutos. “Sem Mim não podeis dar fruto”(Jo 15,1-8). “Quem não opera comigo dispersa”. Quem não vive, nem edifica com Ele, nem O confessa como Filho de Deus, acaba por adorar amuletos, sucedâneos, falsos ídolos, cisternas rotas, imaginários moinhos de vento, castelos na areia, arruinando a própria vida. “Que importa ao homem ganhar o mundo inteiro se vem a perder-se a si mesmo?” (Mc 8,36).
A mensagem quaresmal de Bento XVI exorta a “conhecer o amor de Deus, por nele, crermos” (1 Jo 4,16) e a celebrá-lo, na verdade e coerência, segundo a promessa e a esperança a que somos chamados, testemunhando o amor e a glória do Ressuscitado, que, vencendo o pecado e a morte, nos dá a vida, a alegria e a felicidade imorredoiras.
2.- Paulo anuncia o evangelho que se manifesta em Cristo e é força de Deus para quem crê e a doutrina da Via, a que Paulo aderiu, sem se envergonhar. Cristo é Caminho, Verdade e Vida, que vem do Pai e a Ele nos leva. Cheio da esperança na Ressurreição, fala com ardor de Jesus, Caminho, Verdade e Vida que se sujeitou à morte para a vencer. Sem medo nem vergonha, fala, sofre e labuta, pelo Evangelho. Anuncia o Ressuscitado, fonte de vida, que é a Via (Act. 9, 2; 19, 9.23; 22, 4; 24,14.22). Para Paulo, tudo é perda e lixo, depois que conheceu Cristo. Acredita “na força da Sua ressurreição e na comunhão com os seus sofrimentos” e reconhece: “Conformo-me com Ele na morte, para ver se consigo a ressurreição dentre os mortos; não que já O tenha alcançado ou já seja perfeito, mas, eu corro para ver se O alcanço, já que fui alcançado por Cristo Jesus” (Fil.3, 8-12).
Como S. Paulo, o recém-eleito Papa Francisco exorta a caminhar, a não parar, a ir mais além, a olhar o futuro, com esperança, certos de que Jesus caminha connosco e não se deve deixar de andar e construir, com Ele, enxertados e alicerçados n’Ele, edificando e professando sempre o Seu nome, pois, é Ele o único que nos pode salvar.
3.- Exorto-vos a cultivar a fé, a esperança e amor a Cristo, despojados de vós mesmos, sustentados, pela oração assídua e fervorosa, certos de que a Igreja de que fazemos parte e na qual trabalhamos, não é nossa, mas é a vinha e obra de Deus. Somos pobres e humildes trabalhadores da vinha do Senhor, peregrinos, descartáveis, passageiros, servos e meros instrumentos, que, após ter cumprido a nossa obrigação, somos servos inúteis, que não fizeram mais que a sua obrigação, na docilidade e obediência a Deus.  
Bento XVI deu-nos o exemplo corajoso, responsável, inefável, que só se compreende à luz da fé em Cristo e na Igreja, que obra de Cristo e templo do Espírito. Não deixou de seguir, amar e crer em Cristo, mas de agir, como sucessor de Pedro. Papa e Bispos não sucedem a Cristo, o insubstituível, de ontem, de hoje, de sempre, única pedra angular. Cristo não tem sucessores. Tem discípulos, seguidores e testemunhas, que d’Ele tudo recebem. Bento XVI não deixou de anunciar, confessar e seguir Cristo, mas, coerente, humilde e responsável, cheio de fé em Cristo e na Igreja, abdicou noutro com mais forças e menos idade, para que ele emprestasse a visibilidade e energias a Cristo, para bem do Seu corpo que é a Igreja, vinha de Cristo e não pertença e obra nossa. Assim, o génio humilde do grande Papa Bento XVI, é um exemplo de humildade, despojamento e responsabilidade, ancorado na
fé e esperança, em Jesus Ressuscitado que vive na Igreja, a aguenta e defende, pedindo para crermos
e o acompanharmos, na oração, de joelhos ao pé da cruz de Cristo, que deu a sua vida por nós, e com a ressurreição nos assegurou a vitória sobre o pecado e a morte. A Ele seja dada honra, glória e louvor, pelos séculos dos séculos.
Amen!
Vila Real, Solenidade de S. José, 19 de Março de 2013
+ Amândio José Tomás, bispo de Vila Real

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

FELIZ NATAL


"Um menino nasceu para nós,
um filho nos foi dado;
tem a soberania sobre os seus ombros,
e o seu nome é:
Conselheiro-Admirável, Deus herói,
... Pai-Eterno, Príncipe da paz" (Is 9, 5).

A profecia cumpriu-se. O Verbo fez-se homem e habitou entre nós.
Santo Natal e feliz ano novo para os nossos alunos, amigos e todos em geral.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

MENSAGEM DE BOAS FESTAS DE NATAL À DIOCESE


Caros Diocesanos, que acreditais no Filho de Deus, desejo-vos Feliz Natal do Senhor e um Ano Novo cheio de bênçãos, peço que sejais fiéis a Cristo, eviteis o fermento pagão que troca a fé cristã por ídolos e bugigangas, caindo no hedonismo, na indiferença e no eclipse de Deus, como cidadãos dum mundo cruel, sem esperança e desorientado.

1.-No Ano da Fé exorto-vos a reconhecer as razões de crer na Encarnação, que revela o mistério de Deus Uno e Trino e “Jesus Cristo, Filho Unigénito de Deus, nosso Senhor, que foi concebido pelo poder do Espírito Santo e nasceu da Virgem Maria”. Um hino  conta assim o Natal de Jesus: “do seio da Virgem Maria nasceu a divina graça, o Verbo entrou e saiu, por ela, como o sol, pela vidraça”. Natal e Páscoa celebram o início e a novidade do Filho de Deus, feito homem, morto e ressuscitado, o qual, na Páscoa, pelo poder do Pai e do seu Espírito, glorificou a humanidade assumida, no seio virginal de Maria, pelo poder do Espírito Santo. Celebremos o mistério do Filho feito carne, sendo mais solidários, respeitadores e amigos dos outros e patrocinadores do bem comum.

2.- Há que fugir do Natal pagão, frustrante e sem coração, obra do eclipse de Deus, da indiferença, relativismo e secularismo que reduzem a fé à esfera privada, trocando-a pelo hedonismo, sem ascese, simplicidade, amor e solidariedade. Não reduzir o Natal a futilidades, dominados por intuitos de expulsar Deus do mundo e corroer a fé cristã na Encarnação do Filho de Deus. Há que dar ao Menino Deus o lugar que Lhe pertence, para Ele nos seduzir e guiar na prática das obras de misericórdia, na solidariedade e promoção do bem comum e no respeito das pessoas, por causa dais quais o Filho de Deus nasceu, se fez homem, passou pela terra fazendo o bem, morreu e ressuscitou.

Impregnados do espírito do mundo, da vil comercialização de sentimentos e atitudes e do paganismo desenfreado, os cristãos, inconscientes, vão a reboque e toque de caixa, como rebanho de encolhidos, indiferentes e complacentes, manobrados, pela opinião pública dominante, voltando as costas à verdade e grandeza do Evangelho, enterrando a luz de Cristo, envergonhando-se d’Ele, dando razão ao que já Freud dizia: “os cristãos são um rebanho de mal baptizados, que vivem e praticam um politeísmo bárbaro”.

3.- Na grave situação económica e na crise de valores transcendentes, há que apostar no conhecimento e trabalho em rede, cientes do que celebramos e da missão do Filho de Deus que encarnou, se fez um de nós, procurando dar razão da esperança que d’Ele provém e para Ele se dirige, neste mundo desumano, desorientado, triste e sem alma.

É tempo de apostar na moderação, escolha e sequela do essencial, na ajuda mútua e abertura ao próximo, na procura do bem comum, na apreciação dos valores perenes da verdade, justiça, liberdade, respeito mútuo e solidariedade humana. Há que abrir os olhos, ver o próximo, com coração, acabar com a injustiça e socorrer os necessitados.

4. – Natal e Páscoa são festas do Senhor e centros dos ciclos litúrgicos da Encarnação e Redenção. Ressurreição e Nascimento Virginal, pelo poder do Espírito Santo, são duas novidades inefáveis do Filho de Deus que, na Encarnação, no seio virginal de Maria, assume a nossa humanidade e na Ressurreição a glorifica e entroniza à direita do Pai. O Natal e a Páscoa devem converter-se em pulmões que nutrem a piedade, alimentam a  esperança e a caridade e são a razão de ser do nosso íntimo viver e crer em Cristo.

A Igreja celebra o Natal de Jesus, exorta à conversão e alegria de servir, dando a vida, como o Senhor da Vida e Filho de Deus o fez, ao nascer, morrer e ressuscitar, por nós. A mensagem de paz e alegria dos Anjos aos Pastores é Palavra à espera de ser ouvida, assimilada e vivida,  para produzir frutos de boas obras.

Com ardentes e fervorosos votos, na alegria de Deus Menino e da Virgem Imaculada que O deu à luz, Vos saúda e Vos deseja um Feliz Natal o Vosso amigo e irmão bispo.  

Vila Real, Festa da Imaculada Mãe do Filho de Deus, 8 de Dezembro de 2012
+ Amândio José Tomás, bispo de Vila Real.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

CREIO EM JESUS CRISTO, FILHO DE DEUS


         O Símbolo dos Apóstolos, depois de proclamar a fé da Igreja em Deus Pai e Criador, continua expressando a mesma fé “em Jesus Cristo, seu único Filho, nosso Senhor”. Tanto nesta versão do Credo como no Símbolo de Niceia-Constantinopla, a parte que se refere ao Filho é a mais longa. Nela são repassados os mistérios da incarnação de Jesus Cristo (que foi concebido pelo poder do Espírito Santo; nasceu da Virgem Maria), da sua acção salvadora e redentora (padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado; desceu à mansão dos mortos; ressuscitou ao terceiro dia) e da sua glorificação e poder de julgar (subiu aos Céus; está sentado à direita de Deus Pai todo-poderoso, de onde há-de vir a julgar os vivos e os mortos).

         Estes mistérios da vida de Cristo e da sua acção em favor da humanidade são celebrados ao longo de todo o ano, mas podemos também situá-los nos principais tempos e festas litúrgicas: a incarnação, no Natal; a acção salvadora e redentora, no Tríduo Pascal; a glorificação e poder de julgar, na Ascensão e também na solenidade de Cristo Rei.

            Em pleno Ano da Fé, neste tempo do Advento que nos conduz ao Natal, somos convidados a aprofundar de modo especial o mistério da incarnação do filho de Deus: quem é Jesus Cristo, porque é que Ele se fez homem, que veio fazer a este mundo, o que significa a palavra incarnação (ou encarnação)? O Catecismo da Igreja Católica (CIC) responde:

«Dado pelo Anjo no momento da Anunciação, o nome “Jesus” significa “Deus salva”. Exprime a sua identidade e a sua missão, “porque é Ele que salvará o seu povo dos seus pecados” (Mt 1,21). Pedro afirma que “não existe debaixo do céu outro Nome dado aos homens pelo qual possamos ser salvos” (Act 4,12)» (Compêndio do CIC, n.º 81).

«“Cristo” em grego, “Messias” em hebraico, significa “ungido”. Jesus é o Cristo porque é consagrado por Deus, ungido pelo Espírito Santo para a missão redentora. Ele é o Messias esperado por Israel, enviado ao mundo pelo Pai. Jesus aceitou o título de Messias, precisando porém o seu sentido: “descido do céu” (Jo 3,13), crucificado e depois ressuscitado, Ele é o Servo Sofredor “que dá a sua vida em resgate pela multidão” (Mt 20,28). Do nome Cristo é que veio para nós o nome de cristãos» (Compêndio do CIC, n.º 82).

«O Verbo fez-Se carne para nos salvar, reconciliando-nos com Deus» (CIC, n.º 457); «O Verbo fez-Se carne, para que assim conhecêssemos o amor de Deus» (n.º 458); «O Verbo fez-Se carne, para ser o nosso modelo de santidade» (n.º 459); O Verbo fez-Se carne, para nos tornar «participantes da natureza divina» (n.º 460) (cf. Compêndio do CIC, n.º 85).

«A Igreja chama ‘Encarnação’ ao mistério da admirável união da natureza divina e da natureza humana na única Pessoa divina do Verbo. Para realizar a nossa salvação, o Filho de Deus fez-se ‘carne’ (Jo 1,14) tornando-se verdadeiramente homem. A fé na Encarnação é o sinal distintivo da fé cristã» (Compêndio do CIC, nº 86; cf. CIC, n.º 461).

Neste tempo, reflectimos também sobre o significado da sua primeira vinda e da segunda, a que chamamos Parusia, em que Ele virá com toda a sua glória julgar os vivos e os mortos. A este propósito, convido os leitores a ler (ou a reler) as reflecções sobre o Advento publicadas no blogue DUC IN ALTUM  (http://maranus2005.blogs.sapo.pt/), uma que tem por título O Advento convida-nos à esperança (6 de Dezembro de 2009) e a outra com o título As três vindas de Cristo (22 de Dezembro de 2009).

Na solenidade do Natal, na Missa do Dia, escutaremos, não a narração do nascimento de Jesus conforme vem relatado nos Evangelhos de São Mateus e de São Lucas, mas o belíssimo prólogo do Evangelho de são João (Jo 1, 1-18), que numa linguagem profundamente teológica, nos diz quem é este Jesus Cristo que nós adoramos como Filho de Deus, a segunda pessoa da Santíssima Trindade. Procuremos escutar com atenção esse texto, meditando bem nas suas palavras. Será uma das melhores formas de vivermos e celebrarmos o mistério do Natal do Senhor.

 

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

ENCONTROS DO ANO DA FÉ EM VILA REAL

Serões com sabor a fé, tendo como tema os documentos do Concílio e o Catecismo da Igreja Católica

Quartas-feiras, 21h00, no Auditório do Centro Católico de Cultura - Seminário de Vila Real

14 de Novembro: Creio na vida eterna

Ressurreição e Vida Eterna
Algumas considerações sobre as coisas do fim.

No início do mês de Novembro, a Igreja celebra a Solenidade de Todos os Santos e comemora os Fiéis Defuntos. Aproveitei estarmos a viver este tempo litúrgico para restringir o tema do nosso encontro (A Vida Eterna) a duas questões: a Ressureição e o Purgatório.
A escolha da Ressureição deve-se às dificuldades e incompreensões que esta levanta, hoje em dia, nos meios católicos. Também escolhi o tema do Purgatório por estarmos no «mês das almas», tempo em que se coloca a questão da permanência e da transformação dos laços que nos unem aos que já partiram.
Todavia, não se pode abordar estes dois temas sem refletir no Mistério Pascal da morte e ressurreição de Jesus Cristo. Ele é a única chave de compreensão e por isso será a primeiro ponto do nosso encontro.

1.      A Ressurreição de Cristo – um foco de luz
Para um cristão, a vida após a morte não é um mito, é uma realidade. É pela fé na Ressurreição de Jesus Cristo que podemos alcançar uma resposta para as perguntas sobre o sentido último da vida. Em Jesus de Nazaré algo de absolutamente novo e impensável realizou-se: "Ele ressuscitou! Ele não está aqui "(Mc 16,6).
Jesus Cristo, o primogênito dentre os mortos (cf. Col 1,18) é o fundamento da nossa esperança de que a vida é mais forte que a morte. A Ressureição de Cristo é um foco de luz que ilumina a vida dos crentes e subverte o sentido da morte porque a partir dela, da Ressureição, a vida e a morte de Cristo entendem-se como uma vida e morte para nós.
Se Cristo não ressuscitou, diz Paulo, a pregação dos Apóstolos é vã (1 Cor 15,14.17). Paulo chama ao Ressuscitado "primícias" dos que morreram. O que aconteceu com Cristo é o penhor e a garantia do que acontece com os crentes. "Eu sou a ressurreição e a vida: quem crê em mim, ainda que morra, viverá" (João 11:25).

2.      A Ressurreição dos Corpos - O que é que ressuscita?
Tal como os coríntios, não conseguimos deixar de nos interrogar sobre a forma de como a ressurreição é possível. Qual é a relação entre o nosso corpo atual e o corpo da nossa ressurreição? Teremos o mesmo corpo ou um corpo diferente?
A melhor resposta poderia ser esta: o corpo é simultaneamente o mesmo e outro.
A pessoa humana é criada por Deus como uma unidade indivisível de corpo e alma. Esperamos a sua reunificação final no último dia, para além da separação física que acontece na morte. Se o corpo é uma parte integral da pessoa humana, uma ressurreição plenamente pessoal deve envolver o corpo e a alma.
Desde São Paulo, na Carta aos Coríntios, até à teologia pós-conciliar e passando pela Soma Teológica de São Tomás de Aquino, a Tradição Católica tenta pensar essa continuidade e essa rutura.
Para São Gregório de Nissa, por exemplo, a alma dá ao corpo uma forma distinta e, tal um carimbo ou um selo, configura o corpo. É pelo meio dessa impressão que o corpo expressa o caráter espiritual da pessoa. Durante a nossa vida terrena, os componentes físicos do nosso corpo mudam várias vezes, mas na medida em que a forma impressa pela alma tem uma continuidade que não é afetada por essas mudanças físicas, podemos realmente dizer que nosso corpo permanece o mesmo. Há uma continuidade corporal genuína dada pela alma.
Na ressurreição, diz São Gregório, a alma vai cunhar o nosso corpo ressuscitado com o mesmo selo com que foi cunhado nesta vida. Não é necessário que os mesmos fragmentos materiais sejam reunidos; o mesmo selo é suficiente para que o corpo seja o mesmo. Entre o nosso corpo presente e o nosso corpo ressuscitado, haverá, de fato, verdadeira continuidade, contudo essa continuidade não deve ser interpretada de forma materialista.
No entanto, se o corpo é o mesmo na ressurreição, também será diferente. Como diz São Paulo: "Semeia-se corpo natural, ressuscita corpo espiritual" (1 Cor 15,44). "Espiritual" aqui não deve ser interpretada como " não material ". O corpo ressuscitado será sempre um corpo material, mas, ao mesmo tempo, será transformado pelo poder do Espírito, e assim ficará livre de todos os limites da materialidade tal como a conhecemos hoje. Conceber as características dessa matéria assumida pelo Espírito está para além do poder da nossa imaginação. «O que nós seremos ainda não foi revelado» (1 Jo 3:2).

3.      A Ressurreição dos que já partiram - o Purgatório e o Corpo Glorioso de Cristo
A tradição da Igreja e o testemunho do Antigo e do Novo Testamentos dizem-nos que a oração pelos mortos é uma expressão de fé que permite aos vivos afirmar que a morte física não é o fim da vida, que há sempre algo para além da morte física (Jo 11, 25-26).
A oração é dirigida a Deus, por todos os mortos cuja fé só Deus conhece (Oração Eucarística IV) por isso não se trata aqui de orar para influenciar a decisão de Deus acerca dos que morrem.
A oração pelos mortos é uma expressão de solidariedade entre os vivos e os mortos, através do único Mediador que é Jesus. Para o cristão tudo é vivido na fé em Jesus Cristo, nada há que possa ser excluído dessa fé, nem mesmo a memória do falecido, cuja vida não é "destruída", mas transformada.
Os laços tecidos entre os crentes, na participação do Corpo e Sangue de Cristo nunca são quebrados pela morte. A oração pelos mortos, permite-nos reavivar esses laços. O fundamento dessa expressão de fé está na Ressurreição de Cristo e na Comunhão dos Santos realizada em Cristo.

Para além dos autores já citados pode-se consultar:
Comisión Teológica Internacional, algunas cuestiones actuales de escatología, 1992
http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/cti_documents/rc_cti_1990_problemi-attuali-escatologia_sp.html
Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, carta sobre algumas questões respeitantes à escatologia,1977
http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_19790517_escatologia_po.html

Henrique Oliveira


28 de Novembro: História da catequese
14 de Dezembro: Apresentação de "Jesus de Nazaré - A infância de Jesus"
2 de Janeiro: Lumen Gentium
23 de Janeiro: Gaudium et Spes
20 de Fevereiro: Dei Verbum
6 de Março: Sacrossantum Concilium
20 de Março: Catecismo da Igreja Católica

Abertos a todos os que quiserem aprofundar a sua fé.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

ESTA É A NOSSA FÉ - I


Da Sagrada Escritura, dos Padres da Igreja, dos documentos do Magistério e da vida de muitos que para nós são modelo de fé e de vida cristã, iremos colhendo citações e ensinamentos que nos ajudem a aprofundar a nossa fé.
É mais um contributo para a vivência do Ano da Fé. Publicamos hoje o primeiro texto, sobre o Símbolo da fé (o Credo):
 
«Na instrução e profissão da tua fé, abraça e conserva sempre só aquela que a Igreja agora te entrega e que é fundamentada em toda a Escritura. Nem todos podem ler a Escritura, uns porque não sabem e outros porque estão demasiadamente ocupados. Por isso, a fim de que ninguém pereça por causa da ignorância, resumimos todo o dogma da fé nos poucos versículos do Símbolo.
Conserva em tua memória estas palavras tão simples que ouves agora, e a seu tempo buscarás na Escritura o fundamento de cada um dos artigos. Este símbolo da fé não foi composto segundo o parecer dos homens; as verdades que ele contém foram seleccionadas entre os pontos mais importantes de toda a Escritura e resumem toda a doutrina da fé. E assim como a semente da mostarda, apesar de ser um grão tão pequeno, contém em gérmen muitos ramos, também o símbolo da fé condensa em breves palavras o núcleo de toda a revelação contida tanto no Antigo como no Novo Testamento».
 
(Das Catequeses de São Cirilo de Jerusalém, bispo – século IV)